Cultura além-cooltural

Foi quando se tornou humano que o ex-bicho-homem passou a habitar em uma natureza própria, não mais aquela compartilhada com os animais. Essa nova natureza, primeira do homem, e segunda em relação ao bicho de outrora, é um ecossistema exclusivo, pleno de linguagem e de ideias, com passado e futuro – não mais o eterno presente –, e com a consciência da finitude, ou seja, da morte. Foi, aliás, ao começar a enterrar os seus mortos, e a cultuá-los, que se cria a cultura.

Em um contexto cultural o homem deixa de simplesmente “existir”, como fazem os demais seres, para propriamente “viver”, conforme colocou Duarte Júnior. Na natureza “natural” os animais tem uma existência unidirecional no sentido da busca do bem-estar em função do mal-estar. Entretanto, na natureza humana-cultural, reintroduz-se sintomática&sistematicamente o mal-estar no cerne do bem-estar.

Para o sociólogo, antropólogo e filósofo Edgar Morin, somos “culturalmente hipnotizados desde a infância”, pois o ser humano só se conhece através da cultura; e, contraditória e complementarmente, a cultura só se conhece através dos seres humanos. Cultura e indivíduo estão, portanto, em relação geradora mútua; e, segundo o autor, o “imprinting cultural” é uma matriz que estrutura “a ignorância da ignorância” que “faz desconsiderar tudo aquilo que não concorde com as nossas crenças”.

O desabrochar cultural, por conseguinte, “necessita de condições frágeis, com grandes perdas de energia, modas, futilidades e superficialidades”, disse Morin, em um limite crítico e constantemente “crísico”. A humanidade, no afã de transformar sua errância em itinerância, esquece-se da diferencia entre atalho e desvio, a ponto de “ninguém escutar mais os [próprios] homens, mas apenas economistas, ontologistas, sociólogos e outros idiotas da mesma espécie”, ironizou o matemático, psicólogo e poeta Spencer Brown.

Consoante à teoria de Marx, segundo a qual o capitalismo será o responsável pelo seu próprio fim, Morin nos incita a uma cultura produtora daquilo que a arruinaria, pois, para o autor, “a vida do pensamento realiza-se na temperatura de sua própria destruição”; porquanto “bárbara é a nossa ideia de que o racionalismo é racional, de que a ciência é científica e de que o humanismo é humano”. E essa funcional barbárie cultural dissimula o caos subjacente, talvez porque, com a ajuda de Adorno, “a não-contradição não pode ser a última palavra para um pensamento conquistador”.

A cegueira sobre tudo que não seja ambição, interesse e vaidade nos esclarece apenas sobre os que semeiam tal cegueira, afirmou Morin; pois a cultura também oculta o fato de que quanto mais se cria menos se é cria de sua época. Nesse sentido, o aforismo de Lenin, “os fatos são teimosos”, em algum sentido, estimula a teimosia contracultural oxigenadora na própria cooltura, porquanto, para Morin, “a verdadeira criação é individual, mas só pode realizar-se em condições culturais”.

A liberdade, portanto, deve exceder a liberdade de expressão, abarcando plenamente a liberdade de alteração! Ou, no mínimo, de transversão. Assim como “possuímos os deuses que nos possuem numa relação de simbiose, de exploração, de parasitismo mútuo”, como colocou Morin, também a cultura deve ser explorada e parasitada simbioticamente na mesma medida em que nos explora e parasita. Um clássico exemplo é o da cultura grega, que, saqueada por Roma, espalhou seus genes culturais no Império que a destruiu; e, de império em império, até nos dias de hoje.

“As grandes obras esperam”, disse Adorno, pois “todas as grandes obras do passado estão à nossa frente” completamos com o filósofo Philippe Lecoue-Labarthe. A própria filosofia grega atesta isso, visto que floresceu verdadeiramente não no coração da plena democracia, mas justamente na decadência “crísica” desta. Foi na queda de Atenas que Platão e Aristóteles revolucionaram o conhecimento humano.

A teoria da relatividade, marco cultural da nossa sociedade, só foi possível, para Einstein, e nas palavras dele, porque “eu sou um verdadeiro solitário que nunca pertenceu ao Estado, à pátria, ao círculo de amizade, nem mesmo à família nuclear”. Foi, portanto, na periferia cultural – e a partir dessa excentricidade -, que o físico alemão revolucionou a cultura cuja centralidade, não obstante, foi-lhe reservada. O centro deve se alimentar das bordas!

Consoante a Nietzsche, Morin promove o abandono cultural como modo genuíno de relacionamento com a própria cultura, porquanto suas “mil singularidades nos ocultam o universal “disse Morin, “enquanto um universal abstrato nos oculta as particularidades”. Levantar-se culturalmente, e para longe dessa mesma cultura, no entanto sem deixá-la – visto que impossível -, é, essencialmente, ampliar o espaço de culto num mesmo ato de rebeldia em relação ao cultuado.

A cooltura humana é um sofisticado acolchoado àquela natureza “natural” compartilhada com os demais animais. O mundo cultural é um berço esplêndido! No entanto, ele demanda retroalimentação positiva, produtiva, “crísica”, revolucionária e, o mais importante, constante, para manter-se num equilíbrio ecocultural positivo e fundamental. Do contrário, a própria cultura adormece, a ela mesma e a nós, como a bebês incapazes e/ou velhos doentes.

Excentricidade sim! Cultura do “além-cooltural”.

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