O “Selfie” de Dorian Gray

O culto de nossos dias à beleza e à juventude remonta à obra de Oscar Wilde, parafraseada no título deste texto, muito apropriada à reflexão do preço que se paga na busca de tais objetivos. Dorian teve de vender nada menos que sua alma ao diabo, não obstante vendo seu retrato envelhecer à medida que ele permanecia jovem, belo e alegre, porquanto, para Wilde, “a alegria de mentir é estética”.

O diabo de Wilde, enquanto encarnação do mal absoluto, abduzido à contemporaneidade, encarna-se na palavra Botox (toxina botulínica), o veneno mais perigoso encontrado na face da terra, cuja dose, por pequena que seja, pode matar milhares de pessoas. O nosso diabo, tanto quanto o de Dorian, por malévolo que o seja, possibilita “reter apenas o lado ensolarado da vida”, como escreveu Wilde, entretanto, para o escritor, “revelando uma visão mutilada da vida”.

Historicamente os homens deixaram de amar aos deuses para amarem uns aos outros. Agora, contudo, passa-se a amar a si mesmo como a um deus, e tal amor cobra perfeição e eternidade. Todavia, para Tzvetan Todorov, esse é um “esteticismo redutor, anti-humanista, na medida em que mutila o ser humano”, pois, para o filósofo, esse individualismo é entendido como egocentrismo e autossuficiência, o que nos leva a desconsiderar os outros; e a nós mesmos enquanto qualquer um.

Benjamin Constant já alertava para o fato de que “há na contemplação do belo alguma coisa que nos destaca de nós próprios, fazendo-nos sentir que a perfeição vale mais que nós”. Entretanto, “não são os seres perfeitos, mas os imperfeitos que necessitam do amor”, disse uma das personagens de Wilde. Tudo o que é vivo é forçosamente imperfeito e perecível, e a beleza eterna, por conseguinte, reside na assunção dessa verdade. Feio é evitar a vida no seu desenrolar natural.

“A beleza é uma faceta provisória do ser, não sua totalidade”, colocou Todorov, pois “dissimula a face atroz da realidade”, que é o fato de envelhecermos e morrermos, o tempo todo, inexoravelmente. Melhor é acreditar no que disse Montaigne: “As mais belas vidas são aquelas que permanecem no modelo comum e humano, sem milagre e extravagância”. Cirurgias plásticas e injeções de Botox, portanto, são um remédio excessivo e bem pior do que aquilo que prometem curar, visto que o envelhecimento é o que há de mais natural e simples.

Os gregos, os grandes amantes do belo, atrelavam a beleza à verdade, ainda que louvassem a juventude enquanto portadora excelente da beleza física, único atributo de valor de um jovem. Aos velhos, a beleza residia na sabedoria e na temperança, e era ridículo a um não jovem desejar juventude. Hoje em dia, identifica-se o belo ao falso, ao sofisticado, à máscara que se usa ao deixar os salões e clínicas estéticas.

As estátuas gregas serviam para eternizar simbolicamente beleza e juventude ás pessoas, visto que estes ideais não acompanhavam a mobilidade da vida, e o seu desaparecimento era, portanto, o grande convite a algo maior, ou seja, à sabedoria. Hoje, contudo, muitos se convertem em suas próprias estátuas, marmorizando-se através de pactos botulínicos com o diabo do excesso de amor impróprio: esculturas narcísicas refletidas em águas tão rasas quanto pouco sábias.

 

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