Multiverso

O conceito e a palavra universo (uni=única, verso=versão) não mais se apropriam ao evento cósmico a que dizem respeito, pois trata-se de chamá-lo, e de entendê-lo, em uma pluralidade de sentidos que só cabem no termo: multiverso, ou seja, múltiplas versões. Essa teoria físico-científica diz que somente o Big Bang e o seu desenrolar não dão conta de tudo que existe, e de como existe; porquanto seu devir retroage diretamente sobre ele mesmo, modificando-o contraditoriamente a cada instante de sua existência em múltiplos sentidos. Na sua empresa de conhecimento, o homem acaba por descobrir que “a verdade é sempre certa abertura de horizontes, uma abertura do mundo”, disse Žižek.

Multiverso são as interações das reflexões do Big Bang nas paredes limítrofes dessa explosão mesma, retornando em direção de onde vieram, sobre as imagens subsequentes dessa mesma explosão que emana do centro à periferia. É o encontro de projeções, umas contra as outras, e, no acidente dessas duas imagens diferentes, nalgum lugar intermediário, surge uma imagem virtual, que é precisamente aquilo outrora chamado de universo material. O Real, portanto, é uma ilusão perspectiva, uma holografia no meio de um vazio cruzado de imagens em todos os sentidos; milhares de reflexões em um labirinto de espelhos, porém, sem os espelhos.

“A ética do Real”, afirma Žižek, “tende a emergir através da transgressão das normas e da descoberta de novas direções”, e o que existe, seja lá o que for, não é aquilo que parte do, e desde o, Big Bang, mas também os seus efeitos que retornam no sentido contrário, confrontando-o, modificando-o, e gerando virtualmente tudo o que há. “A questão não é que o real é impossível”, disse Lacan, “mas que o impossível é real”. Portanto, esse mundo material, atômico, em construção e corrupção, é uma ilusão feita de luz em movimentos contraditórios, funcionando, segundo Žižek, “como algo que não pode ser representado, mas, mesmo assim, é constitutivo da representação”.

Einstein comprovou que o universo é a relação de uma curvatura causada entre matéria e gravidade. Entretanto, esse paradoxo se complexifica no multiverso, pois não só a curvatura espaço-temporal, mas a própria matéria e a gravidade são nada além de ilusões holográficas. Nossa consciência e sentidos que acreditam e insistem na materialidade do mundo, e inclusive na do nosso corpo porque, segundo a psicanálise zizekiana, nós “elevamos tudo o que contradiz nossas certezas à condição de impossibilidade, como meio de adiar ou evitar o encontro com isso”; justamente pelo fato de, e consoante ao conceito multiversal, “o núcleo da nossa subjetividade [ser] um vazio preenchido de aparências”.

Para Žižek, “o real trata-se de uma ilusão, porque, na verdade, ele é traumático demais para ser encontrado”, e no multiverso, “traumático demais” é a nossa inexistência material, o fato de tudo ser, realmente, nada mais que projeções holográficas em meio a um vazio criado por essas mesmas projeções. “Não se trata de não encontrarmos [ou não existir] o objeto” explica Lacan, “mas que o objeto em si é apenas vestígio de uma falta”, é o que falta é justamente aquilo que mais queremos que não nos falte, ou seja, nossa materialidade unívoca. Heisenberg, físico alemão, falou que “não temos uma visão neutra, nossa percepção distorce a realidade porque o observador faz parte do observado”. Presume-se dessa afirmação que tudo o que percebemos já é uma distorção em exclusivo benefício próprio, pois até para “os filósofos verdadeiros”, diz Žižek, “há um momento de cegueira, e creio que esse é o preço que se tem de pagar”.

Jesus Cristo, na sua fronteira material derradeira, perguntou desconsolado: Pai, por que me abandonaste?. Podemos, hoje, recolocar a questão, entretanto, aos nossos pais físico-cientistas, perguntando-lhes: Por que me desmaterializaste? Eles não obstante viriam com equações tão imateriais quanto esse real que querem provar. Aumentando a lista zizekiana dos produtos despojados de sua substância essencial, ofertados pela sociedade contemporânea, mais um, multiversal: a materialidade sem matéria. Em homenagem ao filósofo, e na assunção do multiverso no qual estamos imersos, uma percepção anacrônica, entretanto pertinente, de Lenin: “A realidade real sempre foi virtual”.

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