Homo Extinctor

Foi veiculada a notícia de que o último Rinoceronte Negro foi caçado, e sua espécie, oficialmente extinta. Postagens com a foto do animal figuraram no facebook, para nós, humanos, agentes ativos desta tragédia, curtirmos, comentarmos e compartilharmos, ao modo de um clique, como que observadores passivos. Entretanto, “não há o animal no singular genérico, separado do homem”, aponta Derrida, “existe viventes cuja pluralidade não é oposta à humanidade”.

O news feed do nosso mundo memético sobrepõe-se sobre o drama genético que se desenrola desde que o homem se organizou em sociedade; drama no qual mais de 90% dos seres vivos que já existiram foram extintos, de acordo com o biólogo Dougal Dixon. E não para por aí, pois para o secretário sobre a diversidade da ONU, Oliver Hillel, até 2030 perderemos 75% das espécies restantes, pois ele estima que 150 delas sejam extintas todos os dias no mundo.

Derrida articula a passividade animal à sua nudez, afirmando que “o próprio dos animais, e aquilo que os distinguem do homem, é estarem nus sem o saber”, no entanto, a propriedade mais triste deles parece der a de serem extintos sem o saber. Mais que da Natureza, os animais são a Natureza, porém, com a ajuda do homem, despediram-se dela ao embarcar na Arca de um tal Noé, transformando-se em animais de circo e de zoológico. Agora, cada um deles aguarda a sua vez de ser desaparecido definitivamente.

“O teatro insensato do completamente outro que chamamos animal”, conforme escreveu Derrida, esvazia-se genocidicamente para o homem performar o seu solitário monólogo. O filósofo ainda afirma que é com base em uma falta, ou um defeito do homem, que este se faz mestre da natureza e do animal: uma falta que ele empresta ao animal e instaura sua propriedade. A natureza do homem parece, portanto, ser a de atuar solitariamente e a de assistir desatentamente tal atuação, protagonizando-se justamente sobre cada antagonista que extermina em cena aberta.

De Aristóteles a Lacan, muitos foram os que se perguntaram se os animais podem pensar, não obstante chegando à conclusão alguma. Na falta dessa resposta, permanecemos fiéis a Descartes e ao seu “penso, logo existo”; porquanto sem pensar, não se tem direito próprio à existência. No entanto, foi o filósofo Jeremy Bentham, nos 1790, que fez a pergunta mais pertinente em relação à existência animal: “eles podem sofrer?” Aí fica mais difícil não considerá-los. Derrida, mais tarde, alimentou essa questão perguntando: “eles podem não poder sofrer?” Quase podemos sentir na pele a resposta.

E que sofrimento seria maior que a extinção de uma espécie, de uma forma única de sofrer, e em primeira instância, de existir? No entanto, “os homens fazem tudo o que podem para organizar em escala mundial o esquecimento dessa violência”, criticou Derrida. Atualmente, cientistas se propõem à clonagem de espécies extintas, como que industrializando a preservação da natureza. Teremos, portanto, Rinocerontes Negros, Visons Marinhos, Tigres do Cáspio, Leões do Atlas, entre muitos outros, produzidos conforme a demanda, tal como produzimos iphones. Estes últimos, aliás, bem apropriados à visualização da extinção que impomos à natureza, para curtirmos, comentarmos e compartilharmos o cruel e insustentável legado que somos.

 

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