A gravidade da filosofia

As coisas mais simples e corriqueiras tornam-se graves quanto tomadas pela filosofia. Não que ela busque dramatizar seus objetos, mas porque o ato de conhecê-los evidencia justamente a gravidade intrínseca ao próprio sujeito. O próprio “ser”, isso que há mais comum a tudo que é, permanece, não obstante, como a questão mais antiga e cara à filosofia. E em tal empreitada, disse Gaston Bachelard, “é preciso ser sério como uma criança sonhadora”.

O filósofo é aquele que deve se permitir ao espanto e/ou maravilhamento com tudo aquilo cuja cotidianidade torna invisível. Nessa abertura existencial, a filósofa Simone Weil confessou: “tudo o que é precioso em mim vem de outra parte que não de mim, como empréstimo que deve ser continuamente renovado” e, por conseguinte, investigado e conhecido em profundidade. Só então se pode saber de que se trata esse “precioso” extrínseco que se é – que somos todos.

Entretanto, perguntar-se o que se “é” envolve tantas coisas, e por que não dizer tudo, que, se respondemos a essa pergunta com um nome – o nosso nome -, fugimos da maneira mais leviana da grave questão. “O ser humano é um ente dividido e que se divide novamente sempre que se entrega por um instante a uma ilusão de unidade”, afirmou Bachelard, porquanto no momento em que nos tomamos por indivíduos independentes, só fugimos da interconexão fundamental que nos institui.

Por isso o filosofar: para encarnarmos a gravidade com a qual atraímos os diversos predicados com os quais sufocamos o ser das coisas e, inclusive, o nosso. Portanto, “só podemos compreender as coisas”, disse Paul Valéry, “graças à rapidez da nossa passagem pelas palavras”. E a filosofia é a letra àquele que deseja conhecer as coisas por elas mesmas; e estas, sem ele nelas. O filósofo é esse “sonhador que escuta já os sons da palavra”, colocou Bachelard, pois “o bico da pena [hoje, o teclado] é um órgão do [seu] cérebro”.

“Estou sozinho, portanto penso no ser que curou minha solidão”. Nessa frase, Bachelard encontra-se genuinamente na filosofia, (des)encarnando a um só tempo a “insustentável leveza do [seu] ser”, o sustentável peso do seu nada e a gravidade estruturante entre um e o outro. E, por acaso, “o metafísico”, pergunta Bachelard, “não é o alquimista das ideias grandes demais para serem realizadas?”

 

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