Faceburca

As telas através das quais nos conectamos ao mundo-rede-social assemelham-se às pequenas aberturas das vestes islâmicas, os niqab, com as quais carne e osso são encobertos, e só o olhar – e aquilo que é visto – é evidenciado. Quando no facebook, por exemplo, nossa existência se resume no rastro daquilo que olhamos e, do outro lado, nos olhares enquadrados nos estreitos rasgos das demais burcas virtuais. Mundo de ausências, ou como afirmou Beckett, um universo um vazio infestado de sombras.

Cabe aqui a pergunta de Alain Badiou: como um sujeito pode sustentar-se a partir do momento em que desaparece e em que somente o próprio ‘eu’ é sua única atestação? A resposta, também do filósofo, é a de que “só existe verdade autêntica sob a condição de podermos escolher a verdade”. Portanto, visto que o real é a impossibilidade dessa escolha, ou seja, o irresistível, encontramos na virtualidade a liberdade em relação ao real. Também aventamos aí uma dignidade segura e desejada, porquanto “toda vulgaridade vem da incapacidade de resistir”, já afirmou Nietzsche.

A superficialidade subjetiva nas redes é proveitosa porque, “evocadas segundo sua ausência, as coisas tem uma energia poética sem precedente”, pois “aquilo em que uma verdade se apoia não é a consistência, mas a inconsistência”, disse Badiou. Por conseguinte, encontra-se força e potencialidade inimagináveis justamente no enquadramento redutivo das redes sociais virtuais; não obstante, em detrimento da materialidade sensível, propriedade até então das redes humanas tradicionais.

Uma vez no palco virtual, o ator é obrigado a encenar seu avatar conforme o manda o figurino, e este, aqui proposto, é a faceburca, que reduz o ser àquilo que sai do olhar, bem como o nele cai através dos displays digitais: cópia pálida e apropriada daquilo de caótico que se esconde por detrás dos panos. “Um simulacro é sempre a substituição de uma fidelidade […] pela encenação de um vazio”, já afirmou Badiou, pois, mais fácil é “contentar-se subjetivamente com o simulacro”.

No entanto, de acordo com o filósofo francês, “as narrativas têm como única função propor-se como matéria para a dúvida”; e ainda que nesse mundo virtual sejamos somente nossos olhos, devemos, através deles, duvidar sempre das narrativas que a eles se oferecem. A verdade nua e crua, aquela da qual o sujeito não consegue escapar quando está frente a frente, corpo a corpo, é essa a que mais se oculta nos rasgos da faceburca. Contudo, a vantagem que podemos tirar das máscaras, segundo Oscar Wilde, é a de que a verdade melhor se mostra através da mentira na qual se esconde.

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