Arte de ver

Não vemos simplesmente porque temos olhos, mas os possuímos porque precisamos enxergar as coisas, pensar acerca delas e, enquanto animais que desde sempre somos, deliberar de quem e em que momento fugir ou atacar; com quem procriar; quais alimentos consumir ou não; etc. A visão não é uma capacidade que existe para si mesma, mas em função de uma intelecção primordialmente voltada à sobrevivência, pois “a ação é um movimento no qual já existe um fim”, disse Aristóteles.

No entanto, instituições históricas tais como a aristocracia grega, os clãs romanos e a burguesia moderna, dispensaram os mais abastados da ocupação e do acautelamento acerca da sobrevivência, liberando seus olhos ao deleite estético supérfluo e, por conseguinte, à arte. Isto porque o “espírito humano é capaz de conceber formas muito antes de elas lhe serem reveladas”, afirma Lévi-Strauss, o que evidencia a precedência da capacidade de ver em relação àquilo que é visto. Olhos ociosos, por conseguinte, hão sempre dar-se o que ver.

A arte, portanto, perverte a visão no sentido de ocupá-la com o não fundamental. Talvez nos encante justamente por isso, como que as férias da visão voltada à sobrevivência. Plutarco já dizia que “nosso entendimento deleita-se com a imitação como de algo que lhe é próprio”. Ver por ver, sem a necessidade de envolver o restante do software que condiciona e origina a visão, parece ser um privilégio confortável, porquanto os “esquemas geométricos [e artísticos] se afastam da natureza a ponto de cada um interpretá-los a seu modo”, conclui Strauss.

Todavia, a arte não faz diferença entre os acidentes da natureza e as coisas por ela representadas, deixando-os, de certa forma, todos no mesmo plano; de um lado valorando o supérfluo e, de outro, alienando o vital. A realidade de quem frui é, portanto, mais vulnerável em relação ao real. Sintomaticamente, “o único meio de a arte perpetuar-se”, para Lévi-Strauss, “é dar origem a outras obras de arte, que, para seus contemporâneos, parecerão mais vivas do que aquelas que as precederam”.

E cá estamos nós, no atual império-torrente das imagens – artísticas, publicitárias, selfísticas, etc. -, vendo muito mais do que precisamos para simplesmente viver, cegos em relação aos sinais da natureza no sentido da nossa preservação e atribulando exaustivamente o ócio visual que tal cegueira outrora nos proporcionou. A evolução e a bonança histórica, que liberou o olhar humano da sua própria contingência, devolvem, por conseguinte, o homem à inexorabilidade de ver incessantemente seu mundo se nele quiser sobreviver.

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