Escrever na vida

Escrevo quando não sei o que fazer com a vida, e ao começar, a dúvida se transforma nas possibilidades que essa vida em questão comporta, pois, segundo Lukács, “a realidade não é, torna-se – e, para que se torne, é necessária a participação do pensamento”. Permito-me ser encurralado por essa obsessão em escrever acerca da vida que se atravessa no meu viés filosófico por confiar na afirmação de Adorno de que os “pensadores em que falta o elemento paranoico não têm impacto, ou são prontamente esquecidos. A fuga das ideias fixas transforma-se numa fuga do pensar”. E “nada de útil acontece enquanto as pessoas não começam a dizer coisas que nunca disseram antes”, disse o filósofo Richard Rorty.

O mundo globalizado e “hiperinformacionalizado” é uma nova Babel, mais caótico que nunca e resistente em se deixar ser apreendido. É fundamental o uso de mapas supersimplificados e constantemente atualizados a informarem a mutável topografia contemporânea para que se possa, inclusive, permanecer no mesmo lugar; visto que “o mesmo lugar” desloca-se, hoje, na sua relação volátil com todos os outros. Essa mobilidade esquizofrênica da vida se dá, conforme Althusser, porque “os homens expressam não a relação entre eles e suas condições de existência [o que seria uma âncora], mas o modo como eles vivenciam essa relação”, ou seja, uma nau desgovernada.

Pierre Bourdieu criticou nossa sociedade justamente porque os teóricos habilitados a falar sobre o mundo não sabem coisa alguma sobre ele, e as pessoas comuns, que de fato conhecem o mundo, não são capazes disso. Percebe-se aí, com a ajuda do sociólogo francês, que importante é os “comuns” – os verdadeiros sábios – dizerem do que se trata, afinal, o mundo, mesmo que incipientes em relação às “teorias habilitadas”. Hegel já dizia: “temos que ter uma nova mitologia”; pois, ao homem, o mito se oferece como terreno mais firme que qualquer prova científica abstrata, e porque é “o senso comum que cria o folclore do futuro”, disse Gramsci.

Os pensadores autorizados é que, por costume e tradição, desautorizam os outros que não eles próprios, isto é, os “comuns”, de inscreverem-se no mundo que é comum a todos. Entretanto, Terry Eagleton questiona essa relação hierárquica afirmando que “a moral [o costume] é o resíduo fossilizado de uma história anterior”, sendo a primeira a pedir revolução. “O importante é o que podemos fazer para convencer as pessoas a agirem de maneira diferente das que adotaram no passado”, disse o filósofo americano Richard Rorty, e o passado é a concisa torre de marfim residência de poucos e ícones.

A vida, que de todos é posse comum, só pode ser descrita apropriadamente quando todos a descreverem simultaneamente, ainda que isso nos coloque distantes das conceituações acadêmicas e de suas abstrações acerca da estrutura da realidade. Não escrevo para saber o que a vida é, porquanto indefinível, mas para esquecer a necessidade dessa questão sempre que se-me apresenta, talvez por concordar com Zizek quando ele diz que “se viéssemos a saber demais, a desvendar o verdadeiro funcionamento de realidade social, essa realidade se dissolveria”.

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