A Bruxa Má Homofóbica

Há exatos 60 anos, Alan Turing fez seu logoff depois de comer a maçã envenenada por ele com cianureto. O gênio cientista matemático, sem o qual não existiria o computador no qual escrevo, foi vítima da homofobia inglesa incapaz de absorver a sua genialidade e a sua humanidade a um só tempo. Ao assumir publicamente sua homossexualidade, foi imediatamente condenado por atentado aos bons costumes, sendo rechaçado pela sociedade e privado de seguir em suas pesquisas.

De forma ironicamente binária, Turing teve de escolher entre a prisão e a castração química. Optando por esta última, passou ao ostracismo social e profissional, ao mesmo tempo em que via seios lhe surgirem por efeito dos hormônios do seu tratamento. Caiu em uma depressão da qual nunca mais saiu. Segundo Freud, “a miséria do melancólico é a expressão de uma aguda desavença entre as duas instâncias do eu decomposto em dois pedaços, um dos quais se enfurece com o outro”.

Obrigado a sumir publicamente com sua masculinidade não-conforme através de overdoses diárias de hormônio feminino que aniquilavam seu desejo e o seu corpo, a punição para Turing foi transformar-se naquilo que ele evitava, ou seja, numa mulher – e ainda por cima frígida! Para Freud, os gregos, fortemente homossexuais, tinham no mito da Medusa a mulher frígida e petrificante que enrijecia e mortificava ao mesmo tempo. Turing, no entanto, foi duplamente meduzificado, enquanto símbolo petrificador e imagem petrificada.

 De acordo com o pai da psicanálise, a escolha homossexual se origina de uma rivalidade com os homens, o que explica o conflito entre homossexualidade e sentimento social, porquanto o objeto do desejo serve para substituir um ideal não alcançado do próprio Eu. E Turing havia encontrado vitória social através dos seus inventos científicos, tanto quanto e paz no seu conflito com os homens através do desejo por eles, porque, novamente com Freud, “os instintos de autoconservação seriam também de natureza libidinal”. No entanto, impedido de se autoconservar, autodestruiu-se.

A maçã envenenada que tirou a vida de Turing foi, simbolicamente, a homenagem derradeira à sua última paixão lícita e possível, sua obra predileta, Branca de Neve e os Sete Anões. No entanto, o cianureto com o qual o gênio se despediu foi gota no oceano das mentes envenenadas dos seus contemporâneos. Sim, ele comeu do fruto, e porque proibido, fez questão de morrer justamente através dele. Para quem sobrou o papel da Bruxa Má? Felizmente, Turing sobrevive nas milhares de maçãs da Apple mundo afora, inicialmente preenchidas, em sua homenagem, com o arco-íris gay.

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