Corpo-só-órgãos

“Não é próprio do homem desejar o impossível?”, perguntou certa vez Deleuze. Por certo que sim! Tanto o é, que na última semana cientistas japoneses mapearam a genialidade do craque Neymar em uma empresa de redescoberta da matéria humana. Revestiram o corpo e o cérebro do jogador com sensores eletrônicos e mediram, durante um jogo, os diferenciais químicos e geográficos de suas sinapses, a utilização e especificidade de cada um dos seus músculos, bem como a contribuição de cada um dos seus órgãos, separadamente.

Agora, o Japão tem a posse de mapas e gráficos da genialidade futebolística, e do “algoritmo Neymar”. Importante para os pesquisadores era saber o que, objetivamente, o craque tem de especial que não ele mesmo em sua totalidade natural e subjetiva; pois, segundo o psicanalista Serge Leclaire, a ciência só se interessa por “sistemas cujos elementos estão ligados entre si precisamente pela ausência de liames, um conjunto de puras singularidades”, ou seja, tão somente usos e funcionamentos.

No entanto, Deleuze aponta que ciência e tecnologia, “agindo por si próprias, tomam uma coloração fascista”, pois ambas estão “voltadas à formação de soberania”. Não nos esqueçamos de Hitler na sua tentativa de sobrepor a suposta superioridade ariana mundo – e judeus – afora. Agora, algum laboratório farmacológico milionário, com a posse da fórmula neymariana, poderá desenvolver um Prozac futebolístico e um “shake” proteico que oferecerá a musculatura ideal para a geração de uma legião de melhores do mundo. “O real não é impossível, ele é cada vez mais artificial”, concluímos com Deleuze.

“Foi preciso chegar-se ao capitalismo para se ter um regime técnico de exploração do homem”, disse  Marx. Por conseguinte, organizar o Neymar enquanto coleção desconexa de órgãos, músculos e trocas neuronais é explorá-lo como se ele fosse menos que um simples e único objeto, mas sim enquanto objetos apropriáveis, em pleno detrimento do sujeito que ele é. Lacan já dizia que “a parte nada tem a ver com o todo”, pois é o todo, inabordável, que reina sobre todas as partes.

“Os animais guardam seus órgãos nos seus próprios corpos, ao passo que [agora] no homem ficam alojados aqui e ali, em diferentes lugares do mundo”, disse certa vez Samuel Butler. Destruição à la Hegel, à moda de conservar, ou construção tipicamente humana, à maneira de destruir? Enquanto respondemos a essa pergunta, Neymar está decodificado, algoritimizado e disponível para download no nosso mundo altamente especializado e desumanizado, em um formato criado há 300 anos por Andrew Ure: “Órgãos mecânicos e intelectuais”.

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