Linguagem infinita

Apesar de ter concebido o infinito, o homem o fez através do finito horizonte que a natureza primeiramente lhe impôs. Os antigos árabes já lidavam com o conceito de infinito através dos algarismos matemáticos que podiam ser enfileirados e somados indefinidamente. Contudo, a ideia de ilimitado que a linguagem algébrica proporcionava a eles servia, até então, para mensurar grandezas maiores que suas possibilidades de intelecção.

Milênios mais tarde, Wittgenstein condicionou essa capacidade de alcançar o inalcançável à linguagem humana com a seguinte máxima: “os limites do meu mundo são os limites da minha linguagem”. A partir da afirmação do filósofo, o universo é tão somente o que foi pensado acerca dele; e até onde o pensemos, eis seu limite. Todas as coisas que o homem pode conceber são, portanto, obras-primas da sua extensão linguística.

A invenção do universo infinito por Giordano Bruno, em 1600, foi esse processo dramático entre realidade imanente e linguagem transcendente. O pensador intuía um cosmos ilimitado, porém não conseguia pensá-lo objetivamente. Para tanto, imaginou-se lançando uma flecha aos céus e a seguiu com seu pensamento. Entretanto, a flecha esbarrou nalgum muro sideral limítrofe – o pensamento resistindo ao impensado – no qual Bruno subiu e relançou sua flecha para além dele.

Repetindo muitas vezes o procedimento sempre que um muro se interpunha entre ele e o infinito desejado, deduziu, por conseguinte, que poderia transpor os limites do universo sempre que estes se lhe apresentassem; de muro em muro; de flecha em flecha; de coisa em coisa; de palavra em palavra. Contudo, tal aventura levou Bruno à fogueira, pois, se ele havia extrapolado os limites do seu próprio mundo, os da sua sociedade permaneciam muito aquém, e o que não podiam eles pensar não deveria ser pensado; portanto, pecado mortal!

Isaac Newton, décadas depois, intrigado com a queda dos corpos em direção ao centro da terra, utilizou-se de artifícios linguísticos para conceber a gravitação dos corpos celestes. Imaginou um canhão lançando horizontalmente um projétil que, não obstante, caia nalgum lugar distante. Triplicou a potência do canhão e a bala imaginária caiu três vezes mais longe. Calculou, então, qual deveria ser a velocidade necessária de uma bala para que esta desse a volta no planeta sem cair e, em seguida, a força que deveria ter o lançamento para que um corpo nunca mais caísse.

Descobriu, portanto, que a força da gravidade podia ser vencida por outra força (velocidade), desde que esta fosse muito maior que aquela; tal a que a lua, por exemplo, possui para nunca cair na terra; e, por conseguinte a da terra para que gire em trono do sol sem nele cair, apesar da atração constante deste sobre ela. Newton, contudo, teve um destino mais feliz que Bruno, visto que seu mundo já tinha limites mais amplos, por conta de uma linguagem mais ampliada e compartilhada.

Todavia, os avanços dos dois gênios só foram possíveis porque estruturados na simplicidade manuseável de suas palavras e das coisas pensáveis através delas. Sem tais tijolos linguísticos não teríamos, eles e nós, como construir nosso mundo nem o universo infinito que o contém; no entanto, este último, por dizível e pensável que seja, existe muito mais na possibilidade de ser dito que na de ser provado empiricamente. Logo, a primeira – e talvez única – infinidade real do universo seja a própria linguagem humana mesma, inesgotável em sua potencialidade de criar mundos&fundos infinitos.

 

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