… um “espaço do seu tempo”, por favor…

Então eu falo ao garoto do telemarketing que só tenho um “tempo do meu espaço”, nada mais. Ele hesita um instante e inicia sua caminhada através do meu tempo. Já eu, no espaço dessas linhas…

O que cargas d’água ele quer dizer com “espaço de tempo”? Por certo que o meu tempo, mas definir previamente um espaço para isso me parece capcioso. Fosse só o tempo, eu poderia encerrá-lo a qualquer instante – afinal, não é isso que o tempo mais faz consigo mesmo? Mas, sendo também espaço, tenho eu de percorrê-lo todo, até o fim, para só então de deixá-lo?

“Espaço de tempo” é uma ideia que dimensiona previamente um transcorrer temporal, que assegura a dois distantes pontos do tempo – e a todo o recheio – ser uma coisa só. É como fotografar a duração sem que ela deixe de durar. História é o referente perfeito à expressão “espaço de tempo”: a visualização “espacializada” de um devir qualquer. Essa é a armadilha telemarketingniana!

Como o meu impertinente “tempo de espaço” ajuda a me desvencilhar do atendente? Penso na evolução dada de determinado lugar, por exemplo, o bairro de Copacabana: nos últimos cem anos esse lugar deixou de ser o arrabalde de chácaras esparsas para se tornar a densa princesinha dos prédios – e preços – altos. Sua evolução urbana é o tempo desse espaço.

No entanto, o termo “lugar” é uma superficialização demasiada do universal absoluto que é o espaço. Tomo então todo o espaço disponível como objeto de investigação: o próprio universo. “Tempo de espaço”, portanto, refere-se primordialmente à expansão desse mesmo universo. E não é o que acontece com o espaço desde o Big Bang, espacializar-se?

O espaço só é enquanto expansão ao longo do tempo; e o tempo, enquanto duração através do espaço. Um é medida e verificação do outro. A disputa entre esses dois deuses universais primevos gera uma tensão materializada cujo nome oficial é gravidade. Quando nem o espaço, nem o tempo arredam pé, o excesso obsceno dessa dupla presença é o universo propriamente dito; as coisas em si; o peso.

Parágrafos à frente, o “espaço de tempo” do atendente encontra sua fronteira derradeira, e ele me solicita uma posição definida. Entretanto, o meu “tempo de espaço”, expandido dos limites iniciais, e afrontado pelo tempo decorrido, materializa gravitacionalmente o peso do telefone, e a ligação, inevitavelmente, cai!

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