Tostão eterno

Paz depois da paz, solução após solução, ordem surgindo da ordem, progresso após progressão? Ilusão imatura de quem é mimado por circunstâncias favoráveis. Paz só depois de guerra, solução só no pé de um problema, ordem só a partir do caos, e progresso só na esteira da estagnação! Dura sabedoria sem a qual não se enfrenta o devir em sua dinâmica intrínseca e contraditória. Paz, ordem, progresso, etc., são somente a “cara” de uma moeda que, contudo, é indissociável da sua “coroa”.

Heráclito de Éfeso, grego de há 2.500 anos, enxergou a misteriosa e profunda força vital que sobrevém da guerra superficial entre os opostos sob uma “natureza que ama se ocultar”. Segundo ele, “o contrário é convergente e dos divergentes, a mais bela harmonia”: o quente nada é esquecendo do seu oposto, o frio. Só é quente aquilo que pode – e fatalmente irá – esfriar. Por conseguinte, só merece ser chamado de vivo aquilo que carrega a morte consigo, visto que, não morrendo, não viveu! Algo só “é” se for ao mesmo tempo o seu oposto e o inevitável caminho de uma ao outro.

Enxergar estabilidade na natureza furta o vivo movimento da existência, pois a fixidez é uma quimera que só existe no mundo insipiente das ideias. Do que se está alienado ao se enxergar o perene e o particular? De acordo com o filósofo grego, do princípio estruturador da realidade, do incondicional fluxo entre algo e o seu oposto que, nesse percurso mesmo, gera a cartela de qualidades e particularidades que inadvertidamente intentamos fixar.

Todavia, se há estabilidade no universo, esta é somente o desejo de permanecermos nós mesmos nele, ou de que algo particular permaneça nele, e para nós: birra contra a subjacente certeza da transitoriedade que atravessa nossa carne, nossos desejos e nossa existência. Fixar um universo que só faz se transformar é perversão que, não obstante, cobra sintomaticamente alto preço, e este é a dramatização da transitoriedade primeira da qual se tentou escapar; daí o medo da morte, da guerra, do caos…

Encarnar a efemeridade absoluta do percurso, sabendo que justamente atrás de qualquer qualidade particular espreita o bote do seu oposto, é a sabedoria que Heráclito nos incitou a buscar por detrás da brincalhona natureza. Sua aposta na contradição é tão profunda que inclusive sugere que, quando queremos algo, devemos buscar justamente o seu oposto, pois não é lá que terminaremos, mas sempre no outro lado da moeda. Só a transitoriedade entre os opostos é qualificável e eterna, só ela vale, ainda que um tostão.

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