Topografia Bissexual

Se há um motivo primeiro no sexo, este é a reprodução, tanto que a natureza dotou-o de um gozo/recompensa que excede o próprio ato para garantir que nenhum indivíduo lhe escapasse. Há muito pervertido em relação à perpetuação da espécie, o sexo, para muitos, é um intercurso indispensável à vida psicológica e social; sexualizados para além da função sexual primeira, mas plenamente abertos a ele por razões pessoais e/ou culturais. No outro extremo temos as pessoas ditas assexuais, que dispensam completamente a prática como se o sexo fosse um acidente a ser contornado, também em benefício de motivos de natureza individual.

Entre esses dois extremos, abre-se a demissexualidade, um espaço a meio caminho da sexualidade plena e da sua recusa absoluta. Os demissexuais são os que não experienciam atração ou atividade sexual antes de estabelecerem conexões emocionais com alguém. Entretanto, havendo sentido afetivo, realizam satisfatoriamente suas dimensões sexuais. A demissexualidade também atende a imperativos e necessidades exclusivamente pessoais; porquanto toda orientação sexual, alienada da preservação da espécie, é uma condição essencial que orbita em torno e em prol do sujeito, como que um sistema-natureza individual.

Todavia, a demissexualidade é trazida aqui na intenção elevar topograficamente o fenômeno da bissexualidade. Heterossexuais são aqueles que “sexuam” exclusivamente com o sexo oposto; homossexuais, com os do mesmo sexo; porém, ambos se orientam em relação a um sexo determinado em detrimento de quaisquer características pessoais não natas. Agora, se a condição para envolver-se sexualmente com alguém é fundamentalmente a afetiva/sentimental, ao modo dos “demi”, o sujeito-parceiro é elevado a tudo aquilo que excede o sexo a ele determinado por uma natureza há muito perdida. A demissexualiidade, então, vem a ser a possibilidade da bissexualidade.

Portanto, já que o “fazer sexo” não mais nos advém como procriação, e é só o prazer-gozo de fazê-lo – ou não – o que importa, importa muito pouco – ou nada – o sexo daqueles com quem fazemos sexo. A demissexualidade, por conseguinte, é o respeito indiscriminado ao humano em sua pluralidade potencial, muito mais que à nossa binária existência animal.

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