Sofisticados&arrogantes “eus”

O mundo, em primeiro lugar, e o universo, por último, são as melhores e mais eficazes ficções intelectuais a serviço da ordenação do caos que extrapola nossos limitados sentidos e as nossas circunscritas racionalidades. Realidades são os frutos dessas empresas ficcionais individuais; e são tantas as versões quantas forem os seres humanos a experienciarem a miríade incognoscível do real; tantos centros quantos forem os pontos de vista; tantos deuses quantos forem os crentes; tantos “eus” quantos forem os outros.

A filosofia e a ciência são tentativas de centralização unívoca das múltiplas e periféricas realidades individuais. As verdades, tanto as filosóficas quanto as científicas, pretendem-se, por conseguinte, como os centros correcionais irredutíveis para onde todas as versões particulares do real devem se voltar, para então expiarem suas precipitadas originalidades. Um juízo único e funcional é, portanto, preferido no lugar da riqueza complexa e contraditória dos muitos juízos particulares.

Entretanto, as limitações dos sentidos e da razão humana não desaparecem nas empreitadas filosóficas e científicas, subsistindo incólumes, e não menos contraditórias, na construção positiva de suas versões únicas para o plurívoco e irredutível real. Assim como qualquer um ordinariamente crê no mundo que institui ao seu redor, filosofia e ciência acreditam nas suas ficções extraordinárias, figurando somente como mais dois sofisticados&arrogantes “eus” adossados ao rol de todos os outros pré-existentes.

Ignorância e criatividade são os patrimônios naturais sem os quais o homem não teria deixado sua simiesca condição primeva. Foi o desconhecimento em relação ao todo que fez com que cada um inventasse uma satisfatória e particular estória para si, sem com isso reduzir em nada a complexidade daquilo que se ignorava. A ciência e a filosofia são o mesmo tipo de desconforto em relação à miríade de versões que o real profere, porém reducionistas. Felizmente, as ficções seguem brotando nas mentes dos ignorantes e nos corações dos artistas. Com estes heróis, ainda que extremos, o universo está a salvo de uma versão única.

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