Semovente&Mutante

O que quer que seja que nos mova, isso mesmo é inalcançável, porquanto sagazmente semovente: move-se mais rápido do que qualquer coisa que tente acompanhá-lo, a ponto de ser precisamente aquilo que concede a inércia a todo resto. Se atingíssemos definitivamente esse motor da vida, seria ela própria movida por nós – a vida subjugada pelo que vive – e nós, movidos somente por nós mesmos. No entanto, o sonho de sermos nosso próprio “deus ex machina” é a perversão maior que nunca tardou em expiar tal pecado.

Sendo dinheiro o que buscamos, ao consegui-lo nos damos conta de que não era exatamente ele, ou de que se tratava de mais, ou não somente disso. O mesmo acontece com fama, amor, felicidade, ou qualquer coisa que elegemos como motor. Ao tangermos o tal objeto desejado ele é esvaziado ao seu próprio nome: objeto; e é neste exato momento que sobrevém tudo aquilo que não cabe dentro dessa “coisa”, ou seja, o sujeito e a abertura impreenchível do seu desejo.

Os gregos eram movidos pelos seus ideais etéreos; os romanos, pelo seu objetivo imperialismo; a idade média, por um Deus ideal; o mundo moderno, pelo capital, objetivamente! ; e nós, contemporâneos, pelo ideal de um indivíduo plenamente socializado. Contudo, ao reificar precipitadamente o motivo motor de si próprio – e acreditar cegamente nele – é que o homem encontra nada além do que é movido, isto é, ele próprio; sendo irremediavelmente levado por aquilo que lhe escapa, tomando direções as mais contraditórias: vide o movimento da história.

O que nos move – que é semovente&mutante – não pode, portanto, ser uma coisa determinada, visto que as “coisas” é que são determinadas pelo que as move. O motivo motor do homem parece ser, antes, um inexorável princípio de credulidade na sua própria inércia, e o esquecimento dessa crença mesma. Desejar a posse daquilo que o possui é seguramente o que move o homem, mas é como o cão que corre atrás do próprio rabo, revolvendo-se inadvertidamente sobre suas próprias pegadas, privando-se do revolucionário&gratuito passeio da existência. E “existir” (ex-sistire, em latim) significa “assistir de fora”, não de dentro, não no centro: nós não somos a movida que nos move, e quando somos não nos movemos.

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