Pós-pré-socráticos

Há 2500 anos, os gregos inventaram a filosofia não por necessidade imperiosa alguma, mas justamente pelo motivo oposto, por desfrutarem de uma época de pleno desenvolvimento social e econômico. Foi quando os cidadãos (homens brancos e livres) deixaram de se ocupar com a subsistência – os escravos é que cuidaram disso -, é que experimentaram pela primeira vez o ócio que liberou o pensamento ao imediatamente desnecessário, ou seja, a constituição do cosmos, o ser, etc.

Os helenos de até então não eram habituados às abstrações filosóficas; muito pelo contrário, o homem era o núcleo e a imagem verdadeira da realidade, e nem seus deuses escapavam dessa mundanidade sensível e inalienável, porquanto cheios de paixões destemperantes. Parafraseando Nietzsche, era difícil para os gregos captarem conceitos; ao contrário de nós, [pós]modernos, que facilmente sublimamos o pessoal em abstrações, para eles o mais abstrato retornava sempre a uma pessoa. Tudo o que não coubesse a um homem ou a um deus, isto é, a natureza inteira, era nada além de um disfarce metamorfoseado e passageiro.

Todavia, com desenvolvimento econômico entre as cidades hélades, a adoção do dinheiro-moeda substituiu as trocas de coisas-por-coisas, abrindo caminho à generalização da abstração. O pensar, desvinculado de imagens alegóricas, somado ao tempo livre dos livres, passa a vagear em torno do amor, da amizade, do tempo e, em mínima instância, do átomo! A natureza, por conseguinte, irrompe com uma realidade própria e autônoma, não mais ilusória, mas a ser pensada: cada vez mais determinada e determinante. Deuses e homens, antes senhores do cosmos, encontram-se doravante subjugados e reificados.

Desde então, a empresa entre o pensamento e o capital não cessou de valorar coisas e desvalorizar homens e deuses. Dessarte, o átomo-proletário ateu&consumista é o fruto pós-moderno daquele casamento entre o trabalho escravo e a abastada aristocracia grega ociosa às realidades paralelas. Até hoje a supra-realidade do tempo livre e do dinheiro segue como privilégio de poucos e a expensas de uma massa simbolicamente escravizada. No ócio criativo subjaz, portanto, sempre e em qualquer sociedade, uma injustiça em relação aos fatigados&impossibilitados de reinventarem a si próprios.

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