“pequenos-Eus”.

O olhar revela tudo, menos o olho que lhe dá origem. Estamos sempre do outro lado da paisagem, a ponto de acreditar que ela anteceda a visada em si. Todavia, o elemento que compõe o quadro é o correlato positivo do desejo que o pintou. O negativo é o desejo, e ambos são primeiros: espaço vazio que se preenche com o seu esvaziamento mesmo.

O próprio “eu” é sujeito à imagem do que ele não é: todos os outros. “Eu” é o que não consegue ser através de qualquer outro: aquilo que resta; a “orfandade” do universo adotada por um paroxismo egoísta que não dá trégua! Nada além do caos determinado desejando-se ordem possível. O “Eu” é a fuga do fantasma que primeiro o assombra: a inexistência.

Não obstante, o posterior disfarce positivo, sem o qual a negatividade primeira não se revela, é mentira dupla: falseta acerca da essência inconclusa&desejosa do ser e, ao mesmo tempo, a dissimulação dessa mentira mesma. Uma mentira para a mentira! O ser enquanto a mentira do nada, justamente porque o nada é a verdade do ser.

O universo individual é a tela branca sempre já pintada com todas as cores e formas; cada vazio preenchido imediatamente antes de ser percebido como tal. A mínima coisa já deve figurar plenamente antes mesmo de revelar-se completamente. Projeção cinemática espetacular positivando cada sórdida&inconsistente negatividade. Pequenos e infinitos “eus” desejosos&inconclusos criando desesperadamente a mesma quantidade de “outros” que lhes devenham.

Entretanto, se o vazio é asfixiante, o todo, na mesma intensidade, é acachapante! Tantos “pequenos-Eus” ricocheteando-se e atomicamente entre si, escondendo uns dos outros suas próprias ilegitimidades: eis o caos retomado e ameaçando todo o edifício do ser! Uma mentira a mais, sobre tantas outras, não há de ser a ruína de uma fundamental ilusão! Pode-lhe ser combustível inclusive! Mintamos, então, excessivamente!

Todos os fantasmas, corpos etéreos e primeiros de todas as coisas do mundo, devem, contudo, ser representados por menos personagens: economia cênica. Em vez de tantos “pequenos-Eus” insipientes, um bom resumo da ópera clama por uma estrela maior, uma que iluda para muito além do espetáculo. Depois do aplauso final, é a eterna imagem da “Diva” que mantém o encantamento indefinidamente.

A suprema figura do “Grande-outro”, portanto, chancela perfeitamente a farsa maior, coagulando a estrutural miríade de incompletudes que é o ser para o lado de lá da imagem que vemos. O desejo materializa-se justamente no que impede sua materialização.

Ainda sem deixar o espaço dramático do ser, nada representa melhor a ilusão máxima a qual podemos nos submeter do que a absurda destemperança da Diva ao dizer: “Oh! O universo está contra mim!”.

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