“Moradia é um verbo”

Favelas crescem duas vezes mais rápido que a cidade legal, a uma taxa de 25 milhões de habitantes por ano. Seremos 2 bilhões de favelados em 2030 com as orlas urbanas transformando-se em depósitos de lixo humano&urbano. As cidades do futuro, em vez de feitas de vidro e aço, como projetadas por Corbusier nos ‘1920, e cinegrafadas por Tati nos ‘1950, serão construídas de tijolo aparente e restos de madeira; e, visto que onde o mercado imobiliário explora livremente é nas favelas, só teremos favelas sem cidades!

A favelização decorre do aumento da riqueza urbana; no entanto, de acordo com o arquiteto anarquista John Turner, homenageado no título desse texto, os pobres são os ricos sem acesso à própria riqueza, pois a “superurbanização” é impulsionada pela produção da pobreza, não pela oferta de emprego dos detentores dos meios de produção – do capital -, mas sim por aqueles explorados por eles. Turner afirma enfaticamente que as favelas são a solução para as contradições do capital, não o problema.

Mike Davis, em seu livro “Planeta Favela” informa que na cidade do Cairo 2 milhões de pobres moram em cemitérios onde foram sepultadas gerações de sultões e emires. Em Mumbai, 1 milhão vive só nas calçadas, entretanto, pagando taxas regulares a policiais e milicianos. Também culpa os britânicos pela sistematização da favelização asiática e africana, pois eles acreditavam que uma apropriada urbanização promoveria solidariedades anti-coloniais. Sem deixar aqui de lembrar Haussmann, que fez a mais célebre reforma urbana em Paris, no entanto, somente para os burgueses.

Nos países subdesenvolvidos 78% dos habitantes urbanos são favelados, e o perverso&atual elogio social à práxis dos pobres é a tacada de mestre com a qual o Estado se retira da problemática, mantendo investimentos no embelezamento de áreas já beneficiadas da cidade em detrimento dos serviços básicos às mais pobres. Criminalizar as favelas é a estratégia inversa para melhor desassisti-las. E a grande jogada de há quase um século são os jogos olímpicos, os eventos institucionalizados que mais expulsam os pobres das cidades.

A extrema riqueza inverte&perverte o processo urbano natural, e o ideal contemporâneo das elites é o estilo de vida californiano, só que em condomínios temáticos nas periferias, com Starbucks e multiplexes privados, enquanto os pobres se adensam nos decadentes centros urbanos. De acordo com Davis, a busca de segurança e isolamento social é obsessiva e universal, porém, a segregação urbana só permite uma ilusão de proteção, pois, para o autor, o pobre favelado ainda é o maior e mais presente símbolo humano: vítima e herói do movimento social e econômico.

As favelas consomem inclusive as antigas periferias agrícolas produtoras dos víveres necessários ao sustento urbano, bem como os entornos dos maiores reservatórios de água das grandes cidades. Em Nairóbi, por exemplo, a água encanada não é mais potável. Falta de água e excesso de esgoto são as contradições urbanas primordiais, corrompendo o motor fundamental que viabiliza o ajuntamento humano. O urbano do futuro viverá com sede e dentro da merda!

Os antigos gregos instituíram o ostracismo que bania para os arrabaldes o cidadão que alcançava poder e notoriedade em demasia. Hoje em dia, a favela é a orla de um ostracismo duplamente invertido que exclui justamente os já excluídos, e não para longe, pois são eles que justamente sustentam a riqueza – aos moldes do proletariado marxiano -, mas sim para dentro de uma exclusão ainda mais obscena e instituída chamada favela.

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