Linchamento de ponta-a-ponta

O primeiro linchamento registrado no Brasil é de 1585, com Antônio Tamandaré tendo sido mutilado, estrangulado e queimado por índios insatisfeitos. Se até hoje atos como este conflitam com a evolução da nossa civilização é porque revelam o primitivismo sistêmico da nossa sociedade, visto que o linchamento é muito menos a perturbação da ordem&progresso do que o questionamento de uma desordem estrutural.

Linchar é uma forma bárbara de participar na reconstrução de um mundo que se tornou insuportavelmente assimétrico; é questionamento do poder e das instituições sempre que estas não cumprem sua parte no trato social. A população lincha, sobretudo, para indicar sua indignação com a falta de um Estado eficiente, e esse descontentamento explode em decisões simbólicas, obscenas, súbitas, irresponsáveis e irracionais.

Foucault bem colocou que “na justiça popular há a massa e o inimigo”, onde é exibido “um aspecto de carnaval em que os papéis são invertidos e os poderes ridicularizados”. Um casual ajuntamento em torno de um suspeito faz com que o simples indivíduo seja, a um só tempo, ele mesmo e todo o resto, fazendo coisas que em outra situação não faria. Por conseguinte, e infelizmente, a injustiça a que todos se percebem irremediavelmente atados não figura menor que a vivenciada pelo linchado.

A última linchada do Brasil, a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, foi mais uma vítima injusta do mesmo povo insatisfeito&encurralado que incendeia ônibus e destrói agências bancárias, precisamente por este se perceber invisível aos desgovernos do Governo em benefício do 1% que o interessa e o compõe. Devemos, e até podemos, sentir na pele a barbárie a que Fabiane foi submetida, pois, afinal de contas, foi a nossa sociedade mesma que a linchou. Inserir-se, social&politicamente, nessa problemática é a única forma de revolucioná-la.

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