Ela morreu

A notícia. Silêncio. Antes que a tristeza desse seu primeiro passo em minha direção, um lapso temporário no qual, para além da má nova indesejada, só existia a história da minha irmã que acabava de acabar.

Eu era o espectador perdido que não entendia o enredo da trama. Entreato. Só um cigarro existia no meu horizonte de desejo. Então, caminhando do hospital até a tabacaria mais próxima, procurava, no ar quente daquela Porto Alegre do dia vinte e sete de janeiro de 2014, nicotina e pistas do que e de como sentir. Afinal, o que fazer antes de doer demais?

Lembrei então de um assalto que eu havia sofrido há alguns anos, quando dirigia o carro do meu mestre cenógrafo, Rodrigo, nos arrabaldes daquela mesma cidade. O ladrão me levou para o meio de um matagal, jogou-me no chão, e colocou o cano da arma na minha nuca. Parecia meu último momento. Naquele instante, o mato no qual meu rosto estava enterrado brilhou verdejante como nunca; seu cheiro explodiu ácido como que em narinas virgens; e a estrila dos grilos era de um timbre de surpreendente intensidade.

Os minutos foram passando… Eu não morria. Olhei para trás e o assaltante não estava mais lá. Ufa! Olhei novamente para a grama. Só que a cor especial havia desaparecido. O ruído e o cheiro também eram novamente pálidos, soterrados pela minha existência mais uma vez assegurada. Incrível foi que somente na iminência da morte a vida se mostrou em sua gratuita plenitude e exuberância.

De volta à antessala do meu luto, no trajeto até o cigarro, aquele ar quente e úmido do verão portalegrense tinha cheiro, cor, densidade. As palmeiras da Avenida Ipiranga me diziam verdades absolutas só por balançarem. Até o cheiro da poluição era uma surpresa à respiração. Mais uma vez o protagonismo da morte me afrontava com a sua antagonista inerente: a vida.

Acendi o cigarro, e cada tragada me devolvia o mundo em sua incompletude: cada vazio sendo preenchido por uma falta, até que o vazio deixado pela minha Graziela se apresentou absoluto: falta sensível e presente, mundana e doída. Não mais a vida se apresentando na iminência da morte, mas a morte, na iminência da vida.

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