Goiaba Azul

A Goiaba pode ser azul! E também pode nem ser ela mesma…

Num voo da Cia Azul peço, como sempre, um pacote de “Goiabinha” (biscoito de massa assada envolvendo um pedaço de goiabada). Na embalagem, logo abaixo do nome em grandes letras, outras, menores, estampam o sedutor slogan: “A Goiaba em todo o seu esplendor”. Não muito longe dali, bem do outro lado do pacotinho, abaixo do obrigatório quadro nutricional, uma ressalva em letras minúsculas seguindo um pequeno e deslocado asteriscozinho: 

“Esse produto não contem goiaba”.

Vivemos na era da “dessubstancialização” da substância básica das coisas, da “desessencialização” da essência essencial que constitui um ser: café sem cafeína, leite sem gordura, cerveja sem álcool, guerra sem baixas, riqueza nas dívidas e, a 10 mil metros de altura, a goiaba sem goiaba. Nada de novo, só mais do mesmo. Nesse caso, menos…

É incrível como algo que não é a goiaba em si pode ser tão ou mais suficiente que a fruta verdadeira. A Goiaba Azul é sempre deliciosa, com a mesma consistência e constante tonalidade, e será exatamente assim, para sempre! Qualquer traço de sazonalidade é excluído da goiaba quando se exclui a goiaba dela mesma. 

Os gregos bem sabiam que as coisas são o que elas não são para nós. Destrua todas as cadeiras do mundo e ainda assim a “coisa” cadeira existirá mais perfeita do que nunca. Toda e qualquer cadeira material só faz atrapalhar e desdizer a cadeira em seu devir esplendoroso. Assim é a Goiaba! Qualquer goiaba natural sempre será um tanto menos goiaba do que desejamos – um tanto ácida, um tanto machucada, um tanto bichada, ad infinitum. 

Impossível é encontrar algum defeito na CH³COOCH²CH³! Isso é o que queremos quando queremos a goiaba! A fruta verdadeira, que envolve e carrega essa precisa e preciosa fórmula, é o que nos atrapalha e distancia daquilo que a goiaba pode ser em seu esplendor!

Portanto, a Cia Azul, ao afirmar, na antiecológica embalagem hiper-publicitarizada, que o “esplendor” da “goiaba” está na sua ausência, devolve uma verdade platônica fundamental soterrada pela materialidade contingente do nosso mundo.

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