Filosoprima-dona

Uma leitura filosófica é como um dueto de vozes em ação: de um lado o filósofo-prima-dona do evento cantando suas ideias e, de outro, o leitor/ouvinte acompanhando ativamente cada palavra/melodia da ópera. 

Entretanto, esse acompanhamento que fazemos ao ler não pode se dar em silêncio, pois isso seria calar nosso espaço próprio de atuação na cantata e, de certa forma, deixar a estrela principal a sós num Odeon vazio.

Tampouco o canto em uníssono acrescentaria algo de novo ou de melhor ao espetáculo, isso só duplicaria o que já está dado: a quantidade homogênea do volume ocupando todo o desejado espaço da heterogeneidade tímbrica.

Um frutífero dueto filosófico acontece quando o leitor acompanha o autor em uma linha melódica paralela complementar – uma “terça” ou “quinta”, “alta” ou “baixa” – acrescentando brilho ou peso, abertura ou suspensão à partitura ideal. Dessa forma é possível fruir, simultaneamente, a melodia principal do autor, a secundária, do leitor e a precisa distância que as separa e constitui: espaço promissor e convidativo, porém vazio e necessariamente impreenchível.

Funcionando a opereta nessa dupla e fecunda harmonia, a magia polifônica de uma terceira melodia cantada por ninguém (a própria filosofia?) brota espontaneamente para além das duas iniciais. Brilha aí, virtualmente, o fundamental acorde maior, universo onde todo e qualquer ruído encontra lugar.

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