Entendeu ou quer que eu filosofe?

Ouvi de uma professora que em filosofia não se desenha, pois, por princípio, ela deve ser textual&argumentativa, o que muito frustrou o meu conhecimento arquitetônico e geométrico disponível&impetuoso. Nesse momento, sobreveio a máxima que Platão colocou no portal de sua academia: “Quem não é geômetra não entre”. E, como alguns dizem que toda a filosofia ocidental não passa de notas de rodapé das páginas de Platão, desacreditei confortavelmente da minha mestra contemporânea.

No diálogo “Timeu”, o filósofo grego desenha sua epistemologia afirmando ser o conhecimento um ponto geométrico adimensional e perdido no espaço. O deslocamento desse ponto em direção a um fim determinado perfaz, no vazio, uma reta unidimensional, e esta seria a ciência. No momento em que aquele ponto se afasta da reta científica delineada, como que para contemplá-la à distância, triangula-se o plano bidimensional das opiniões. E quando esse ponto se eleva sobre o plano descrito, visando de uma só vez a sua posição inicial, o seu trajeto científico linear e a sua superficial posição opinativa, tridimensionaliza-se um espaço, o único capaz de abarcar a complexidade volumétrica das sensações. Platão levantou sua pena aí.

Entendeu ou quer que eu filosofe?

Distante o suficiente da minha mestra acadêmica, e próximo o bastante de Platão, risco impetuosamente sobre o desenho iniciado há 2.374 anos pelo sábio, e adiciono uma dimensão extra à sua teoria: a quarta, ou seja, o tempo. A intenção é contemplar de uma só vez o conhecimento em seu solipsismo adimensional primevo, o subsequente deslocamento unidimensional científico, a bidimensionalização superfícial das opiniões e a tridimensionalização volumétrica das sensações. A quarta dimensão aplicada sobre o devir epistemológico seria, por conseguinte, a própria filosofia, pois só a ela interessa igualmente todo o processo do conhecimento em todos os seus estágios.

Minha professora, não obstante, tratou o conhecimento simplesmente como o ponto platônico inicial, adimensional e indeterminado, por isso impossível de ser desenhado; somente apontável abstrata&argumentativamente. No entanto, deixando a nota de rodapé na qual a filosofia pós-platônica teima em permanecer, vejo, a partir de Platão, que o conhecimento subsume-se constitutivamente no próprio espaço que ele desenha, ocupa e preenche. As muitas dimensões do saber, da adimensionalidade à tetradimensão, cabem num desenho muito mais que num texto, porquanto nosso intelecto é muito mais um tempo&espaço infinito que a aridez topográfica da superfície de uma página.

Filosofou ou quer que eu desenhe?

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