Do Outro Lado do Mármore.

Um admirador perguntou a Michelangelo como ele havia feito seu Davi a partir daquele bloco de mármore, e ele respondeu: “Simples, eu olhei a pedra e então retirei dela tudo o que não era o Davi!”.

O curioso que questionou o gênio renascentista acreditava que a escultura havia sido feita a partir de fora, da superfície bruta e amorfa da matéria, com o aventureiro trabalho do cinzel a transformar o disforme em forma plena. Pensava o simples homem que uma obra-prima certamente deveria ser feita do mesmo modo como ele construía a sua própria vida: aos poucos, através de tentativas e erros, e sem saber bem do resultado.

Entretanto, Michelangelo não fez nada além de resgatar aquele ser perfeito do excesso de mármore que, por milhões de anos, o privava de seu espetacular devir. A visão lá dentro do grande artista encontrou no interior secreto daquele bloco amorfo um correlato irresistível. Duas maravilhas recônditas, uma no homem e outra no mármore: a ideia genial e a excelência formal.

Quanta humanidade em ter a obra só no final do processo! Quanta genialidade em tê-la desde o início! As duas maneiras, por certo, exigem trabalho e espera. Porém, no primeiro caso, o empreendimento é solitário, sem a presença do objeto desejado até que todo o trabalho tenha sido feito. Aí só há a busca. Já no segundo, esse objeto é presente o tempo todo, amigavelmente camuflado do seu próprio devir.

Presente, passado e futuro são inextensivos e contemporâneos na genialidade: Davi já espreitava enclausurado na rocha a partir do instante em que essa era visada, na pedreira, pelo olho do artista; passou a revelar-se pacientemente, blasé à mão que o desnudava na talha, até a última martelada; para então, livre de tudo o que não era ele próprio, passar à existência eterna, para muito além de sua materialidade.

Nas “obras-nada-primas” da vida cotidiana nas quais nos lançamos, muitas vezes acreditamos estar como aquele curioso que primeiro indagou Michelangelo, longe do nosso Davi, separados dele por tempo e esforço. Entretanto, como só o gênio pode mostrar, o desejo de Davi já é o Davi por excelência: ele já nos aguarda, bem ali, do outro lado da superfície marmórea, desde o instante em que começamos esculpi-la.

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