Belles Époques

O que há de mais belo do que um momento que não olha para nada além de si próprio, que suspende a análise do que o antecede ao mesmo tempo em que desconsidera o que o sucederá? Por acaso não são instantes assim que chamamos de felizes? Por certo, porquanto são as elipses nas quais nada mais importa para além do que está contemplado dentro das alienadas fronteiras; delimitação oportuna que afasta a barbárie caótica da realidade em sua inextricável conexão com o todo e com o sempre.

Épocas são nada mais que isso mesmo, períodos onde os laços que as ligam com o todo são inadvertidamente ignorados, como quando estamos entretidos com amigos, às voltas de um bom papo&vinho. Já nos singulares momentos encurralados entre um angusto passado e um imperioso futuro é que estamos inescapavelmente ligados ao contraditório e desconcertante real. São esses os períodos inquietantes que clamam por revolução no sentido de uma nova bela época livre de tais desconfortos.

Pirro de Élis, grego fundador do ceticismo, na sua radical pressuposição da impossibilidade de conhecermos as coisas – e suas conexões com o todo e com o sempre – disse que a única coisa digna de ser feita diante da realidade é a suspensão completa do juízo; e o seu termo para isso era “epokhé”, que deu origem à nossa palavra “época”. Portanto, época vem a ser esse lapso de tempo onde a razão é suspensa em função da sua incompetência em abarcar a complexa textura&conectividade do real.

Uma época gravita essencialmente em torno da própria ignorância em relação às suas conexões externas, exigindo, por conseguinte, atenção estrita naquilo que somente ela mesma é. Entretanto, suspendendo-se tal irracionalidade, e ajuizando-se acerca da contextura subjacente entre a parte – a época – e o todo – o sempre -, sobrevém cognoscível a nossa pirrônica incapacidade de conhecer&aceitar o severo real. A partir daí, tudo que vemos é crise, ou seja, a transição insuportável&necessária do passado para o futuro; o intervalo entre uma época e sua subsequentemente desejada belle époche.

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