Ao saber, as nuvens

O homem desconhecedor do mundo e de si criou o Deus que tudo sabia, e ofereceu à criatura, feita sua miragem e dessemelhança, um lugar especial e acima de todos: as nuvens.

Com o progresso científico moderno, muito do divino deveio mundano, e as pessoas herdaram a plena liberdade para conhecer e dominar a natureza com suas próprias mãos. Entretanto, mesmo desvencilhados dos desígnios etéreos sobre a materialidade de suas vidas, os homens mantiveram nas nuvens os seus grandes imperativos morais: o firmamento enquanto conector virtual da humanidade.

Na esteira da evolução, a epopeia enciclopédica do Século XIX fez o download de toda sabedoria divina necessária à vida dos homens; e esse conhecimento fundamental, espalhado pelo chão do mundo pós-moderno, sistematizou-se “em rede”, valorizando ainda mais o terreno em detrimento do divino. Não obstante, o paraíso permaneceu vivo simplesmente por sua inutilidade.

Ironicamente, no cibertecnológico mundo contemporâneo, a sabedoria absoluta reina binária e liberta de qualquer materialidade contingente, pairando onipresente sobre a cabeça de todos, na “nuvem”. Por conseguinte, o éter celeste volta a ser o receptáculo e o administrador perfeito daquilo que é mais valioso aos humanos: a informação e o conhecimento acerca de si e do seu próprio mundo.

Quando inventou sua própria ignorância, o homem precisou colocar a sabedoria bem acima de si, em esferas divinas não alcançáveis. Contudo, uma vez instituído na plena ciência do seu mundo, ele sintomaticamente repete a ancestral elevação do seu saber às nuvens, como que culpado por tê-las esvaziado na sua sede de saber.

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