À prova de si mesmo

É impossível se arrepender de um arrependimento. Esse sentimento é protegido de si mesmo, pois querer que ele desapareça é desejar a recorrência do erro. Arrepender-se é manter o ato na sua própria esfera de cometimento; é, a um só tempo, o espelho, a face do erro e a reflexão propriamente dita.

O arrependimento é o desejo-de-não-ter-feito encurralado pelo desejo-de-não-mais-fazer. Comprime estreitamente passado, presente e futuro através de uma angusta e inalienável casuística. É o agora sofrendo o antes em função do depois. Senda demasiado próxima do Real, onde o desvio se identifica com o atalho.

Todavia, há certos gozos no arrependimento: a descoberta de limites auto-impostos inconscientemente e evidenciados somente na ultrapassagem dos mesmos; a consciência de não ter ficado aquém do possível – o que pode ser uma dúvida cruel -; e por fim, gozo na antevisão de um horizonte livre daquilo que, no momento, o macula.

A gravidade do arrependimento é suspensa à medida da transformação que provoca. Entretanto, pode perdurar indefinidamente, seja por alguma obscuridade reminiscente da consciência que o sofre, seja porque a lição não tenha ainda oportunizado futuro algum para si. Mesmo quando eternamente presente, o arrependimento é evolução, é excesso de certeza; leva, no mínimo, para além dele mesmo.

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