A Diva História

A História é a gigante duna ficcional composta pelos bilhões de grãos de areia individuais tornados anônimos sob os grandes&icônicos resumos que capitalizam impérios, reis, heróis e gênios. A impossibilidade historiográfica de contemplar a miríade substantiva das individualidades enquanto estrutura do edifício do mundo, figurou, por conseguinte, inadmissível às obras-primas da era moderna, ou seja, às subjetividades burguesas. De lá para cá, com ciência&tecnologia as pessoas foram transformando historiografia em cronologia para melhor marcarem presença individual nas tomadas históricas.

Na esteira da notoriedade, as redes sociais virtuais advém como as novas paredes da caverna contemporânea nas quais todos nos desenhamos rupestremente. Facebook e Twitter, por exemplo, são os murais onde cristalizamos objetivamente nossas subjetividades (opiniões, relações, sentimentos, etc.) como os hieróglifos digitais indispensáveis à compreensão&constituição desse próprio mundo. Essa possibilidade, hoje disponível a cada terminal humano, atende à crítica de Gaston Bachelard de que “os indivíduos não são as testemunhas da evolução, mas seus atores [todos] protagonistas”.

Entretanto, o que resultaria de uma “historiografia-time-line” que dispões de TODOS os dados que tecem a realidade a ser historiografada? Cronologia pura ou a realização plena da História? Por certo que a humanidade sempre foi a obra-prima de todas as mãos, não obstante assinada por poucas. Agora, contudo, essa obra recebe, cada vez mais, as devidas assinaturas individuais, com a fotografia histórica se transformando na “performance-working-process-coletiva” da existência humana por ela mesma.

Empreendemo-nos na dissolução do drama central&unívoco em prol de uma multitude inabarcável de dramaturgias subjetivas individuais, tão anônimas quanto presente, tão grãos de areia quanto os que compõem qualquer duna Histórica. Teatro pós-dramático! Portanto, as subjetivas intenções individuais de participação notória na construção coletiva absoluta, representadas aqui pelo somatório de todas as “time-lines” virtuais online, reconduz os indivíduos ao mesmo anonimato que a História sempre pode lhes oferecer.

Sendo a História essa ficção injusta&inexorável, porquanto absorve todas as originais ficções individuais no mesmo movimento em que as despersonaliza eternidade adentro, podemos encontrar na afirmação de La Fontaine uma confortável verdade em relação à Diva História, e ao anonimato que sua existência necessariamente nos concede, : “As ilusões nunca nos enganam ao nos mentirem sempre”.

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