A carne do museu

Na era das cirurgias plásticas, dos filtros “instagramados” e dos “selfies photoshopados”, fica bem difícil saber do que se trata simplesmente ser humano. As filas homéricas para ver as esculturas ultrarrealistas de Ron Mueck, no MAM do Rio, falam de uma remanescente&saudável curiosidade acerca da vida que subsiste às exibidas “timelines” individuais.

A pelanca, a pele manchada, o cabelo falho, a velhice, o tédio, o tempo inútil, – imperfeições naturais tão desnaturalizadas –, tudo isso, hoje em dia, é coisa de museu! Quando a vida é instituída no extraordinário “selfie” da sua melhor parte, a matéria ordinária&não-editável de que somos feitos grita e fascina enquanto – e somente enquanto – objeto; e de arte.

As incontingências da carne e do tempo, evidenciadas diariamente no solitário espelho ao lado do chuveiro, nas mulheres do ônibus, nos homens da praia, são exatamente as mesmas expostas no MAM. Entretanto, somente dentro&através de uma instituição, no caso, a arte, é que se tornam belas&suportáveis.

Mueck “extraordinarizou” a inexorável realidade humana em sua crua imagem&semelhança. E, a um museu de distância, ganhamos a pervertida segurança em relação à ordinária decrepitude que insiste&assiste a tudo que vive “off-line”.

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