1822 não existe

O tempo pode ser divido em anos, dias, segundos, etc., tantos instantes quanto quisermos. A despeito das elipses nas quais o delimitamos ficcionalmente, ele permanece um só, inteiro. Entretanto, esvaziado de sua substância à medida que recortado. A fatia de 360 dias é uma instrumental abstração para um entendimento limitado, deixando de fora, não obstante, as realidades. Tampouco conseguiríamos a onisciência de todos os instantes correlacionados; isso é coisa de deuses e googles.

O ano da independência do Brasil, por exemplo, é visto em uma tarde por um aluno escolar. Um adulto que lê um bom livro sobre o ano, ao longo de semanas, percebe que 1822 é um mundo bem maior que aquele; já um pesquisador histórico, em uma vida inteira, não consegue descobrir tudo o que houve naquele período. 1822 foi, absolutamente, todos os seus eventos: os grandes&icônicos, os menores&articuladores e, principalmente, os mínimos&substantivos! Cada movimento, cada intenção individual foi, quanto mais não seja, substrato&alicerce indispensável.

É inesgotável o que existe dentro de 1822, ainda mais considerando tudo o que em 1821, 1820, e regredindo até o Big Bang, tem relação fundamental com seu preciso acontecimento. Sem esquecer que 1822 também é, necessariamente, seu próprio reflexo nos anos posteriores, até o momento presente. O ano da nossa independência não existe sem tudo antes dele + tudo até aqui. Sua independência do tempo, por conseguinte, é uma ficção. Permanecemos, contudo, colonos do soberano temporal, submissos à sua secreta miríade de determinações indetermináveis. De momento em momento, momentaneamente protegidos da dissolução tempo afora.

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